quarta-feira, 7 de julho de 2010

Onde está você, Fátima Bernardes? por Selene Ferreira

Já são 4 Copas do Mundo nas quais a repórter Fátima Bernardes é enviada especial da Rede Globo na cobertura dos jogos para o Jornal Nacional (apresentado rotineiramente por ela junto com seu marido William Bonner na bancada dos estúdios da emissora). A frase clássica, na qual o marido chama pela esposa perguntando onde ela está, tornou-se uma marca do telejornal no período da Copa e ao começar a temporada de transmissões do Mundial de Futebol de 2010, milhares de telespectadores aguardavam ansiosos pela chamada que introduz as notícias do campeonato logo no começo do programa: “Onde está você, Fátima Bernardes?”



O fato de um casal (marido e mulher) ser âncora do telejornal já acarreta uma série de questões no que diz respeito à noção de público e privado. Seja por comodidade, afinidade ou estratégia, uma coisa é certa, e pode ser confirmada pela própria mídia: esta estrutura “casal de verdade” na bancada cria uma certa empatia com o público. A vida privada de ambos se mistura à vida profissional e eles se tornam o casal "amigo do telespectador", que o visita diariamente, com o qual ele se sente íntimo e próximo. É como se o casal JN fosse "da família". A relação extrapola os limites da tela e do horário do telejornal. Sua vida privada é exposta ao público que acompanha em outros programas, emissoras e, até mesmo, outros veículos cada passo da história do casal e sua família. Como exemplo, podemos citar a repercussão do nascimento dos trigêmeos em 21 de outubro de 1997 e a forma como a família é acompanhada, não apenas pelos “fans”, como ocorre com a maioria dos artistas, mas também pelos telespectadores em geral do JN, o qual por se tratar de um telejornal não tem a efemeridade de uma novela, por exemplo, que já começa com uma data determinada para terminar.

Uma das formas de se constatar esta relação que o público estabelece com o casal JN é evidenciada pelos comentários postados no Blog "JN na Copa",cujo título é justamente a frase "Onde está você, Fatima Bernardes?", uma estratégia inteligente de aproveitamento da popularização e empatia que a "brincadeira" ganhou entre o público. Dentre os aspectos mais significativos que podemos detectar neste caso está, mais uma vez, esta característica forte da sociedade em que vivemos atualmente: a mistura, ainda mais evidente, entre o público e o privado. Até mesmo o dia de folga é registrado e noticiado no blog, como podemos notar no post intitulado "Um dia de folga em Soweto". As notícias sobre a Copa não são suficientes, o blog traz ao público o cotidiano da apresentadora e sua equipe, os bastidores e informações sobre a África. É preciso levar o público na bagagem, possibilitar que ele viaje junto com o telejornal, ou que o telejornal traga a África para a sala da casa (ou a tela do PC) das pessoas. Trata-se da espetacularização do cotidiano, como ressalta Debord (1997, p.13) “Tudo que era vivido diretamente tornou-se uma representação”. O autor ressalta ainda que na Sociedade do Espetáculo o ter cede espaço ao parecer e a aparência se torna cada vez mais central nas relações humanas.

Outro autor que trabalha com essa questão da aparência ganhando espaço é Gabler em “Vida o filme”, onde contrapõe essência e aparência e analisa as transformações que ocorrem por volta do século XIX, tendo no consumo um de seus pontos principais e nos meios de comunicação os instrumentos mais eficazes de difusão e consolidação das práticas que tornam a vida um filme, uma encenação, um espetáculo constante no qual as pessoas buscam parecer acima de tudo, convencer que são aquilo que desejam que os outros acreditem que elas sejam. Gabler mostra como os atores de cinema (e depois televisão, bem como outras “estrelas” da comunicação de massa) passaram a ser referências e dizer ao público como deveriam agir, se comportar, consumir. As pessoas se espelham nas celebridades para realizarem seus desejos, tomando-as como referência, e assim, fazendo com que a realidade “sonhada” se concretize nas práticas imitadas.

Este processo possibilitou também que a adaptação aos moldes de vida contemporâneos fossem mais suaves, pois as pessoas encontram na mídia uma didática capaz de ensinar o “como viver” nessa sociedade. Como as celebridades se tornam foco das atenções, tendem a ser mais ouvidas e isto proporciona darem às pessoas em geral as indicações de como devem viver. E a personagem deste post representa isto muito bem, como podemos ver a seguir:

Na edição de sexta-feira (11/06/2010) o repórter diz para sua parceira de bancada e esposa: “Fátima, estão pedindo para você mandar uma mensagem para as crianças. Você pode mandar uma mensagem para elas?”. Ao que a repórter completa: “Claro William! Neste sábado é muito importante que todas as crianças sejam vacinadas...”. Vemos neste exemplo um jogo de palavras e de sentidos criado a partir de um fato ocorrido em uma transmissão da Copa anterior, na qual Fátima Bernardes, como figura de mãe, realmente mandou um recado para seus filhos no telejornal. O fato repercutiu bem na ocasião e, aproveitando isso, foi recuperado como uma brincadeira discreta para dar a chamada da Campanha de Vacinação que estava acontecendo no Brasil, através da ambigüidade formada entre “as crianças” como sendo os trigêmeos (filhos do casal, que hoje já são adolescentes) e “as crianças” como as crianças de todo o Brasil em idade de vacinação.

Apesar de seus filhos não estarem mais na faixa etária a ser vacinada, a fala de Fátima Bernardes possui dois apelos muito fortes: trata-se da recomendação feita pela jornalista (e aqui temos o lugar de autoridade que a profissão lhe garante) e também pela mãe (que proporciona identificação com todas as mães que estão do outro lado da tela). Desta forma as chances de convencimento do público são amplamente aumentadas e, novamente, público e privado se misturam, num processo que se faz mais complexo a cada dia cujo sistema tende a se emaranhar e estas duas categorias se envolverem cada vez mais.

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